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domingo, junho 03, 2007

BENTO, ROMÁRIO, SOBEL

Vamos ver se agora com a presença do Papa no Brasil Romário recebe sua bênção para fazer seu milésimo gol. Mesmo com todos os momentos de arrogância que o baixinho já registrou vida a fora, Bento há de lhe perdoar com a condição de que ele, Bentinho, dê o ponta a pé inicial no jogo programado para o milésimo gol no santuário Maracanã. As trombetas anunciarão a condenação de Eurico Miranda por dez anos de prisão por ter praticado o bem. O bem mal-feito.
A romaria para ver o Papa, a Romaria pra se tentar entender o mistério porque esse milésimo deixa de ser milagre. Mas o dia da bola entrar na eucaristia futebolística chegará, e tudo estará sacramentado.
Só não estará sacramentado o pedido que o rabino Sobel fez ao Papa para lhe perdoar o sétimo mandamento - ou será o terceiro? Ou o quarto? Sei lá, só me lembro do primeiro, que é ‘amar a Deus sobre todas as coisas’, e o quinto, que é ‘Não Matar’. Sabe qual o motivo por que o Papa não lhe perdoara? Porque o Papa estava absorto na gravata do rabino e não o ouviu. Bentinho e todo mundo, ou seja, Recruta Zero, Tainha, Dentinho, Cuca, até o Otto, Roque, General Dureza e sua esposa Marta, etc, estavam concentrados naquela linda gravata verde. Pode até ser, digamos, aético, mas na minha cabeça e na de Bentinho e de todo mundo, aquela gravata era pura armâni.
Mesmo que seja de pênalti, valerá o milagre do peixe. Romário corre com a bola debaixo do braço e recentraliza-a na marca do pênalti. A onze metros do gol, segundo um dos mandamentos das leis da FIFA, a igreja do futebol, o Peixe tomará distância e o apito final será soado. Vou passar para o próximo parágrafo para deixar o provável leitor em dúvida em saber se eu vou dizer se o baixinho irá marcar o gol MILagrésimo.
Em Aparecida, o Papa eleva a óstia consagrada e todas as romarias presentes fecham os olhos e pedem perdão por seus pecados. Sobel não pediu diretamente perdão a Bento, não teve coragem direta como os romeiros confessam suas práticas recônditas. Romário não faz exame de consciência porque se considera um deus do futebol, não há pecado sobre a alma de sua bola. Aliás, Romário não faz nem exame de papa nicolau.
Elegantemente trajado, com sua armâni ofuscando o milésimo de Romário, Sobel ergue a bola aos céus e o Maraca inteiro ovaciona-o em coro: “juiz ladrão, juiz ladrão, deixa o rabino completar sua milésima gravata!”. Bento chuta a bola de bico e seu grito de gol é abortado pela galera vascaína. Romário abre sua batina e seus devotos no templo maior do futebol reza a frase estampada em sua camisa: “Deus já sabia. Deus é 1000”.
No dia seguinte o jornal La Observatório estampa: “Graças a deus, só faltam 955 gravatas para o Sobel completar seu milésimo gol!”. Não sei porque essa exclamação se a fala italiana é a própria exclamação. Observação à parte, a gravata, o aborto, o milésimo gol, conjugam o alimento espiritual da imprensa, repleta, como todos sabemos, de pecados veniais e mortais.
Aposentado, Romário curte no Posto Sete seu vôlei de praia, Bento retorna à sua rotina vatiuisque, ou melhor, vaticana, ou, digo, vativinho. Sobel, mesmo com a propaganda do bombril retornando à televisão não conseguirá limpar seu nome na Praça da Sé. Depois do alívio do milésimo, o Peixe agora só sabe cantar: “e que tudo mais, vá pro inferno!”.
Brasília-DF, 21 desmaio de dores mil sete.

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