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domingo, julho 22, 2007

Guernica

2007. Brasil. A porta do carro abre e de imediato é fechada e sai em disparada arrastando e manchando o corpo infantil brasileiro. Com uma demão de tinta preta o pincel dá a tonalidade da mortalidade de geração pós geração do pó branco. O guri consome merla noturna na porta das Casas Bahia ACM; o político mela o código e na esquina da Daslu cheira o artigo constitucional da imunidade parlamentar.
O bombardeio das favelas cariôcas, tanto pelo armamento pesado a ouro branco dos organizados malandros, quanto pela artilharia pesada à pena dos desorganizados otários pms é refletido pela Escola de Frankfurt, tão admirada por Darcy Ribeiro, scholar de tempo integral nos brizolões. Foi lá, no Morro do Alemão de Berlim que Habermas e sua troupe desvendou o crime organizado da alienação cultural da sociedade de consumo da droga política.
Em 1937 Picasso, aumentativo de pincel, já derramava tinta na arcada dentária banguela – na interpretação antropomusical de Caê Levi-Strauss - de balas perdidas das favelas do Rio de Janeiro a Dezembro. Premonição de que Guernica, cidade homônima, era bala de borracha com seus 1.654 mortos e 889 feridos, população de 7.000 habitantes, uma guerra nanica, e o Rio tinha a proporção de sua tela, 3,5m de altura por 7,80m de largura. Esse é o tamanho do buraco do Rio de Janeiro continua lindo, quer queiramos e queremos sim.
Nos matizes da tela picassiana e no imaginário deste cronista, um facão está enterrado entre os chifres de uma vaca, bufando com o sangue escorrendo olhos abaixo, babando saliva de indignação, e, de repente, ela irrompe a sala da Comissão de Ética do Senado Federal. Atônitos, perplexos, todos ficaram, lógico, menos os latifundiários daquele hectário forrado de estrume regimental e cercado por alíneas e parágrafos farpados. O presidente Rena Cangaceiros acalmou a todos e sorriu o riso misterioso de cara mona lisa. Melou o dedo sobre o sangue do belzebu e solenizou que tinha sangue azul e por isso não descolava o rabo bovino da cadeira senatorial.
Formigas mecânicas cavavam o túnel do tempo rumo ao Japão no oco da terra, pois o progresso desvairado da paulicéia desvairada quer alcançar os circuitos eletrônicos do sol poente, quer rasgar os olhos da terra custe o que afundar a caixa craniana da última camada de solo. O metrô repleto de autoridades descarrilou, mas todos 'sartaram' e a manezada tatu é que pagou o patológico progresso atômico de olhos fechados. A bomba hironaga da engenharia engoliu a peãozada e como tira-gosto, caminhões e guindastes.
1937-2007, são 70 anos de Guernica, e 7 x 70 são quase 500 anos de políticos guernicas tupiniquins, cupins corroendo a estrutura óssea do cotidiano brasilãno. São tamanduás chupando os crânios de crianças carvoeiras e as carótidas de escravos em fazendas de políticos latifundiários de votos. Picasso tinha culhão e em seis semanas pintou Guernica. A morosidade da brava gente brasileira, longe vá, temor servil, pincela o nosso quadro social exposto na galeria IDH globalizada. Será que as bandeirinhas de Di Cavalcanti ornam nosso instinto carnavalesco, infantil, na pureza ludopédica ?
Abril de 1937. A aviação alemã bombardeia Guernica, destino artístico na simbologia da luta pela liberdade. Julho de 2007 a TAM, e pouco meses antes a GOL, com artilharia pesada de lucro fácil em conluio com a anac de araque – nem no Iraque em seus piores dias! - bombardeiam a moral brasileira carbonizando o discurso da ex-esquerda de plantão, e ninguém sabe quando o féretro partirá, esfacelando a mão súplica ‘estendida feia e morta’ das ruas para que parem de guernicar com tanta cinza e pus...

sábado, julho 14, 2007

Cyber Pingado

Dei um caratê num adjetivo polêmico e jorrou vaidades pra tudo quanto é mente vaidosa. Até que ponto pontuo meu analfabetismo semântico impresso junto ao meu analfabytismo wikipédia. Meu quaderno jamais será triangular, suas linhas paralelas confrontam com as sem linhas do monitor pc. Passei muito cerol na linha do tempo para monitorar as trezentas e sessenta e cinco linhas do tempo vital. As quinhentas e vinte e cinco linhas da telinha tele avisam, e na proximidade também, que o tempo é purpurina na linguagem das novelas, velas ao vento, frescor de um passatempo a fenecer no horizonte, no altar do alto mar.
Com um mouse sem fio aponto a ponta de meu lápis que me aponta para a modernidade. Meu vô puxava canivete e afiava o analfabetismo sábio da caneta-enxada. Rasgava o solo em corte epistemológico matutês corroborado pela sapiência dos acadêmicos. Não havia contradição nisso não, havia tradição. Um cavalo puxava o arado a escrever em linhas tortas as sementes que germinariam a hóstia consagrada do pão de cada dia. A escadaria do tempo alcançou em nossas mãos a ótica da óptica eletrônica.
O wireless é neto da caneta, e, móri lésse vamos nos entendendo. Alfa foi a primeira letra, beta a segunda, e assim a corrida contra o tempo nas tabuletas transcritas na realidade do sânscrito ao sonho do esperanto, vivíssimo na prática dos sonhadores, morto na visão do pole position econômico de plantão.
A monocultura agrícola semeia tratores e silos no agronegócio, e a monocultura da indústria cultural semeia standards. Um quilo de música transgênica daqui, uma arroba televisiva com agrotóxico dali, um hectare de literatura de auto-ajuda dacolá, conflitam com os clássicos desprovidos de agrotóxicos. In natura o tempo dá tempo ao tempo, mas a pós-modernidade exige abcedário fugaz, fórmula um, corrida contra o tempo que pode causar contratempo na curva tamburelo.
O papa era pop, o papo agora é a agilidade da biblioteca wwwikipedia de Alexandria, o xamã intelectual que cabe na palmtop de minha mão. O relevante agora é a informação e não o meio. Pra quem lê tanta notícia pode se afogar no espaço sideral da internet e se internar porque perdeu o rumo da bússola digital. O cyber é um moto-contínuo acelerado em mais de quinhentas cilindradas. O velocípede é a válvula dos que não se alfabytizaram e que preferem o silêncio dos desplugados.
O adubo que vem do vale do silício é composto orgânico de bits e bytes, e nem deus, que é de pernas tortas, ou melhor, que escreve torto, digo, que é certo de tortas linhas – desculpe, caro leitor, meu personal trainer computer deu pau – não consegue ler a bola de cristal líqüido em estado sólido da informação, segundo a qual o filósofo enciclopedista Diderot derreou telepaticamente e acredita que a internet tem arquitetura de conhecimento perecível.
Agrego o mundo fantástico da internet ao meu grego e latim não estudados e, para mim o homem plástico esta aí para dar nó na imaginação e beber da queda da torre de babel que foi amparada pela net. A internet chegou calculadamente no cume e no caule do céu e é o idioma técnico universal.
A cultura das feiras livres magnetizou-se no software livre. A linha evolutiva do hiperlink, hipermídia, hipertexto desembocará na web semântica, onde software e usuário trabalharão de forma cooperativa. Interação é a palavra chave das mídias, o caldeirão cibernético que ferverá tv, pc, cd, dvd, cd-rom, cd-r, cd-e, dvi, cdf, pqp, etc, gerando adjetivos e exclamações inquebrantáveis até por golpe de caratê, e jorrando vaidades plásticas.

sábado, julho 07, 2007

FLIPAN


O caminho das pedras está traçado em Parati, para mim, leitores e para eles atletas, que lerão os resultados dos adversários com pessimismo em busca do ouro no Rio, yes Pan. É uma leitura em busca do pódio, como o literato busca atingir a linha de chegada ao leitor. No atleta uma contusão nos causa pena, instrumento primeiro de satisfação do escritor em tempos idos. Quem será o recordista de medalhas de melhor e maior leitor do Pan, quem recordará os clássicos a peso de ouro a dar agilidade nos músculos dos novos escribas.
Essa é a 15a. edição de exemplares atletas do Pan, rumo a virarem best-seller com não sei quantos milhares de expectadores e, Parati, e para nós, marca o seu 5o. evento, é mar, é terra, é água. Em todas as modalidades a literatura se exercita. Os atletas sabem que o importante é competir e os estudantes que mais importante que estudar é ler. No placar eletrônico milimetrado Coubertain e Ziraldo cruzam a linha de chegada papo cabeça a papo cabeça, suados de esforço para que todos os acreditem. E todos acreditam que a trinca estudar, competir e ler é o remo da contemporaneidade, quer queiramos ou não, mas querendo é muito mais esporte saudável.
Há uma árvore na festa literária de Parati, e para vós, em que livros pendentes por cordões umbilicais germinam o hábito da leitura na criançada. São os atletas do futuro leitor que correrão em busca de um Machado para devorar um Grande Sertão de Veredas, trilhas, Caminhos Cruzados veríssimos e tudo que estiver nos Caminhos dos Swanns Proust adentro em busca do tempo perdido.
O Pan é continental e a Flip internacional, mas a geografia da plasticidade atlética e da literariedade não têm fronteiras. Dos pulos mortais de Daiane de todos os Santos à imortalidade do anjo pornográfico Nelson (olha o som, som!) Rodrigues, ecoam eflúvios de ginástica e imaginação, e ele, Nelson, é o homenageado do Pan Parati, e para tu, o pai da vida como ela é para o atleta que se dedica na elaboração de seus músculos em tatames e não em asfalto selvagem.
A Vila de Parati, e para ele, é efervescência como a Vila do Pan, onde também passeiam os mestres do passado. O salto triplo que Adhemar Ferreira deu sobre a pedra no meio do caminho, a mão santa que Drummond liricou seus poemas, os laços de família entre Hortência e Paula, o tênis que Clarice Lispector amarrou da literatura brasileira e não da russa, a dedicação de corpo inteiro que Maria Esther Bueno elevou o lustre muito antes que o Guga. E aí se vai em memórias póstumas de Maria Lenke Brás Cubas...
Parênteses. Exercitar o corpo e a mente faz bem à suada saúde, e para isso eu pano de bicicleta e caminhadas e flipo em minha biblioteca diariamente. Minha filhinha, oito anos, adora panar de bicicleta e estou incentivando-a flipar bastante. Este ano ela já flipou vinte e dois livrinhos.
O FLIPAN está repleto de estrelas: Arnaldo Diego Jabor Hipólito tecerá piruetas no solo sobre seu guru, o homenageado da festa, Nelson; Ruy Fernando Rodrigo Castro Morais de Pessoa estarão cavalgando sobre as barreiras do hipismo da censura do rei Roberto Carlos; o pódio Nobel Nadine Gordimer e o israelense Amós Oz cairão na piscina em braçadas profundas sobre o papel da literatura no ‘resgate de uma humanidade permeada pela injustiça’; Silvano Santiago de seu trampolim observa tudo para tecer suas críticas; o augusto Augusto Boal desoprimirá o teatro; os bichos bons de letras musicais Chacal e Lobão se apresentarão em esportes coletivos e mais Paulo Cidade de Deus Lins, Antonio Essa Terra Torres, Mia Terra Sonâmbula Couto, etc... FLIPAN é esporte, música, teatro, cinema, artes, literatura. Flipanamérica!