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quarta-feira, junho 17, 2009

16.06: Meu Bloomsday

08:00h
Dormindo li o jornal Folha do Rio de Janeiro, onde belas paisagens de praias de automóveis intactos em dois metros de asfalto zuniam nas bundas excitantes de morenas branquelas paulistas. Quando acordei dei um beijo em meu ágnus-dei agô que ganhei de minha prima quando coroinha e, por não ter fé em seu Benedito continua coroinha. Mentalmente planejei a aula de não sociologia que teria que lecionar para os pivetes, residentes nas mansões das pontes do Plano Piloto, detonadores de políticas sociais de ONGs e CNBBs caridosas faturosas.
10:00 h.
Já acordado, lidas as páginas de política internacional do New Washington Monde, percebi o acordo que Obama quer fazer na zona de atrito do Oriente-se rapaz: o nobel da paz de 2008 está cravado na zona palestina do Irã, aceso no charutocu bano norte coreano. Politicamente correto: o neguim tá de olho, com a mão estendida para a abertura até da China. Abertura do capital.
12:00 h.
Almocei no cai duro da última esquina da W3 Sul que cruza com a Ipiranga do Palácio da Alvorada onde o crepúsculo está no opúsculo constitucional, artigo ordinário de sétimo parágrafo: não furtarás. Não quero ir ao enterro do Senado com Dignam, este personagem do tijolo de Joyce, porque os dois estão mortos. Saboreei de sobremesa a gustativa semântica contransmagnificandjudeibumbatancialidade.
14:00 h.
Entro no bar David Byrne na avenida Samdu de Taguatinga-DF e em comemoração aos dez anos de travessia de faixa de pedestre em Brasília atravesso um cego tocador de sanfona até a porta do Banco do Brasil. Fomos atropelados pelos milhões de lucratividade segundo o último balancete da instituição, e mais ainda o cego com o tilintar de moedas na bacia amazônica para salvar os índios tupinambás isolados nas raízes quadradas das marcenarias. Jacarandá e mogno espelham em óleo de peroba a mesa de negociação das Nações Unidas.
16:00 h.
Passo na Biblioteca Nacional de Brasília para discutrir com os intelectuais José Sarney, Paulo Coelho e Galvão Bueno, a obra de Shakespeare. Eles expõem suas teorias da criação literária utilizando o idealismo e o materialismo, concluindo que arte e vida interagem. Galvão reforça que Dunga eleva a estética bolabelabrasilbombilharebilabrilha. Paulocoelhocachorrosarney reforçam a teoria de Galvãobuenasdiasimsenhor.
18:00 h.
A piscina de casa, aquecida pelo calor humano, demasiado humano de deus, convida-me a mergulhar além das 130 páginas já lidas de Ulisses, o que farei com tiragosto de sacanagem. Estou amando a leitura da cópia da Odisséia. A água estava espelhando, e vi a sombra do rosto de deus refletir numa parede lateral por onde subia uma lagartixa – anã de jacaré - balançando a cabeça em pleno consentimento de que as invenções humanas, da última gripe suína ao twitter, decepcionarão o sonho de deus em ver sua criação ilesa.
20:00 h.
Lambelambendo o capítulo anterior a mesa da janta está posta: discurso jurídico de advogados que vivem de contendas, rindo das cizânias, da intriga, lucrando com a inflação das leis, com a inflação dos cursos; eventos sociais e religiosos; o estado; o fanatismo; a ordem estabelecida; o gigantismo da técnica... descem ladeira a baixo. Tenho que comer ou vou morrer de fome?
22:00 h.
Já estava de pijama quando recebo a visita de Leopold Bloom, Molly Bloom - esposa de Leopold - Stephen Dedalus e Malachi“Buck”Mulligan. Sentamos à mesa e joguei sobre ela um punhado de palavras embaralhadas que mais ou menos queriam saber por que esta obra fantástica de Joyce, Ulisses, é muito comentada e pouca lida, como de costume dizem por aí. Leopoldo argumenta que hoje a modernidade quer estar sempre up to date, e daí jamais abrem as páginas dos clássicos, como observou Antonio Cícero, fílósofo musical. Se foda quem não quer ler os clássicos. Recolhi os quatro visitantes para o calhamaço de Joyce, fechei-o e o fiz de travesseiro. Dormi combinando sonhos na quintessência dos devaneios semânticos.

2 comentários:

Unknown disse...

Minha mãe assistiu a um filme baseado na obra de Joyce, e ficou escandalizada com o naturalismo da película: nela, mostrava-se até os personagens defecando...

Blogedups disse...

A primeira versão cinematográfica de Ulisses é de 1967, do norte americano Joseph Strick. O filme é uma destilação do livro e não inclui os despudores de Joyce. A versão mais recente é de 2003, razoavelmente aceito pela crítica mas não pelo público nos poucos países em que foi exibido.