Barragem tsunami rompe a cerca nas terras do Piauí. O dilúvio no nordeste oito ou oitenta. Zé Rodrigues canta em nuvens celestiais em parceria com os terrestres Sá e Guarabira que o sertão iria virar mar. Ser tão seco corre pelas veredas agá dois ó para matar a sede glub glub glub o feijão, o milho, e toda safra que sofre sertanejo. Padim Ciço, rogai por nós, bebei toda fé dos paus-de-arara pra São Pedro destampar o Sol. Vovó tira um rosário nos lábios balbuciantes. Os raios alucinantes indicam, segundo a moça do tempo, farta de beleza, que a chuva farta secará a beleza da safra verde. O canto do sabiá sabia a sábia canção de Lula Gonzaga na sanfona do lamento sertanejo. O último pau-de-arara rumo a Sãpalo naufragará na cidade alagada pelas guimbas e pets dois litros e meio nos bueiros a devolver o grau de civilização boas maneiras megalópoles. A revista Piauí inunda jornalismo estético para os que têm sede de cultura, para os que a cultura agrícola não lê o bê-á-bá. Menos de um salário mínimo para as professoras do interior. A sonoridade da revista navega na profundeza de meia dúzia de leitores profundos. Gilberto Gil leu o Piauí na cultura? Dá-me um copo d’água, pois tenho sede. Torquato Neto, poeta maior-PI, abriu as comportas do gás e desaguou bebendo cajuína a que será que se destina em Teresina. Carne-seca na janela, geléia geral, a camada de ozônio, zona de convergência, El Ninho, a voz que se anuncia rompendo barreiras. A Paraíba, o Ceará, Pernambuco e outros, também singram. Que que há? Falta de reza ou foi excesso que deu esse mar de lágrimas? Há pouco tempo Santa Catarina era o Piauí que descia no tobogã em encostas no rolo compressor de água e lama. As análises dizem desrespeito à quietude da natureza pelo bicho homem. Donativos à Santa esborraram em depósitos, tanto que essa semana a notícia de que um sujeito estava vendendo roupas e sapatos a dois reais em vários bazares. O choque da tragédia catarinense não encharcou a sensibilidade midiática para as águas de maio do nordeste. É pau, é pedra, toco, caco de vidro, feijão não colhido apodrecendo, é o milho, é um resto de safra provável para sustento. Mas as lentes da imprensa só manchetearam cidades cobertas d’água. Os desalojados, os deslocados, os afogados, os mortos não chocaram ainda o país como foi chocante por Santa Catarina. Com a próxima barragem essa frieza cidadã será barrada, e aí sim, o assistencialismo de plantão virá à flor da caridade. Prevenção histórica, necas. Gonzagão, filho, lecionou que mata de vergonha ou vicia o cidadão. Agora tanto faz, seca ou toró a servidão de pires na mão. Uma esmola pelo amor de deus. Aguaceiro. O amor de deus na esmola do próximo O Quinze Raquel, A Bagaceira Américo, José Lins obra vasta retratando graveto e pau-a-pique na represa Algodões. Ah, você não está me entendendo? Meu avô contou estórias mais histórias e deu História. Pi pi pi pi pingos no Piauí, piau, copaíba, picuí, picuá, pi aí, Picos. As águas baixaram e o sobrevôo das autoridades – o presidente, o governador, o ministro - desacreditadas constataram, como urubus rondando em busca de alimento político, que realmente as verbas governamentais foram pelo ralo de quem rala, e não dos que rolam e enrolam no rolo compressor da máfia afiada. Em véspera de festa junina a quadrilha política agradece a São Pedro o reverso da seca.
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