Total de visualizações de página

domingo, setembro 16, 2007

Jesus morreu alcoolizado

Hoje engoli uma montanha de matas ciliares e passei o dia arrotando ongs ecológicas escatológicas. Minha flora intestinal carecia de adubo mecanizado, já que ela só aceita produtos processados pelo processo penal capitalista de lucro em larga escala musical levado na flauta. A cada arroto sinto um gosto acre de peões expulsos de canaviais, que por sua vez também foram expulsos dos hectares patronais sanguessugas de origens. Se esses escravos ainda existentes na pós-modernidade agrícola mecanizada correrem, o bicho-papão católico evangélico comem com açoite de bíblia no espinhaço da alma, e se ficarem à pátria livre morrem pelo Brasil em adubo inps. O mar canavial prolifera às custas do combustível na boca do tanque do gol que não se embriaga com quinze quilômetros por litro, encharca a marcha na primeira o caos urbano, o rádio ligado na emissora notícias vinte e quatro horas, reportagem especial em som estéreo que o pó preto da casca da cana abastece os pulmões dos canavieiros, distantes do ‘açúcar com afeto em seu doce predileto’ e do sonho musical sociológico dos buarques. Um-ponto-zero, zero quilometro, zero cal. As vestes negrumes, mulambentas, dos cortadores zero à esquerda que chegou ao poder e amargou o sonho dos sem teto sindical, pegos pelos atravessadores gatos, capatazes posicionados na segunda linha de montagem da lavoura escravocrata. A cotação do barril de petróleo sangra o fundo do mar, o barril de álcool abastece a bolsa de valores dos senhores de engenho. No botequim a turma do funil bebe a do santo numa golada, pede a deus e nossa senhora a proteção divina, na esquina mija no poste, indo trôpego ao barraco dançando ao vento como um pé de cana. A historiografia sociológica já radiografou o canavial brasileiro e o pulmão do canavieiro, a classe capitalista e a massa amassada proletária; a literatura já retratou o ciclo da cana de açúcar. Esta semana, na usina Moreno, em São Paulo, um bóia-fria, Edílson de Jesus, boiou por excesso de esforço no corte. Se cortou-se, e se mais se houvesse mais corte houvera. O atestado de óbito aponta trombocitopênica idiopática. Tradução: a legislação trabalhista e a fiscalização das autoridades o cortaram. O nó da cana não dá cana pro patrão, o nó górdio fica com a bóia do bóia. De 2004 até hoje vinte e dois Jesus beberam caldo de cana, o vinho dos sete palmos. Jesus foi crucificado numa pequena nota em pé de página dos jornais, engordando estatísticas e teses de doutorados que mofarão na última prateleira da última estante da primeira biblioteca acadêmica anêmica. Enquanto isso, Lula, adepto e adptado ao álcool, prega o biocombustível aos quatro ventos, quer alcoolizar a frota de automóveis mundial. Bush quer o álcool que sai do milho, Fidel não quer nem um nem outro, cabeça de biloto. A mecanização dentro das próximas décadas extinguirá a classe dos bóias-frias, e aí não haverá mais mortes no corte, mas haverá corte social dessa classe que será colhida pelas colheitadeiras da agricultura pós-pós-moderna. O bóia-fria, mão-de-obra barata, virará barata nos esgotos da avenida paulista de qualquer cidade. Biscateiro virará profissão, a agilidade da mão no corte de cana, cortará a mão de quem não der uma mãozinha pelo o amor de deus. Em cana, o delega degola o bóia com a pena do artigo penal: não adaptação rumo ao primeiro mundo. A pauta de exportação brasileira terá o carro-chefe movido a álcool. Jesus morreu crucificado na cana de açúcar amargosa para salvar a indústria alcooleira, para dar conforto na estabilidade da paridade do dólar com o real da situação financeira longe dos tremores do mercado imobiliário norte-americano. Jesus morreu sem teto, sem teta estatal, sem tato pra modernização, sem tutu pro caixão. No próximo posto abasteço meu gol, no próximo bar abasteço-me, na próxima safra o Brasil será recordista de sacana, no próximo século o país se basta no primeiro mundo.

3 comentários:

Anônimo disse...

Este cara não tem só um Gol não...Tem uma verdadeira frota, e o Gol só dever usar para ir á padaria aos domingos...
Dizem que a poluição DENTRO dos veículos é QUATRO VEZES maior do que fora. Mesmo assim, milhões de motoristas continuam contribuindo para o aquecimento global, achando que estão ilesos e refrescados por um ar condicionado.
O ser humano(?!!)é especialista em dar tiros no próprio pé...

Blogedups disse...

Enquanto for só no pé, vá lá.

Unknown disse...

O título de seu artigo pode ser motivo para a sua excomunhão ao vivo no bíblico canal de TV do Bispo Macedo...
Aliás, bebida e religião não são incompatíveis. Afinal, Sua Excelência George Bush Júnior foi( no passado? )viciado tanto em cocaína quanto em álcool, hábito que transmitiu para suas belas filhinhas, mas nada disto o impediu de ''descobrir Jesus'' e bombardear o Iraque e adjacências...