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quinta-feira, agosto 30, 2007

Autos do processo

Todos terão seu carro escorrendo rua abaixo rua acima. O padrão de brinquedo chinês a U$ 6.000 e as miniaturas indianas farão com que todos tenham seus quinze minutos de fama automobilística. Mão-de-obra barata os chinas-peões serão os cucarachas orientais desorientados às margens da mão-de-ferro do regime comunista-consumista-ditatorial-capitalista-ista isto e aquilo. As garagens serão nos telhados onde ao sol os quatro-rodas serão grelhados. Nas estradas chegaremos nenhures. A bicicleta, tão eclética em Pequim agora é beijim beijim, e se tornará patética. O importante é dirigir, nem que seja em seu autorama em sua rua sem saída. Bebendo combustível e vomitando poluição ambiental e sonora, galgamos a passos largos o jazigo das jazidas petrolíferas. Metrô, sinônimo coletivo, é retrô. A primazia é o transporte individual. Queimar sola de sapato queima gordura humana e queima status. Pneu, pneu, quem não dirige já morreu. A produção exponencial dos autos levará a um processo sem retrocesso com abscesso. Todos ao mesmo tempo agora nesse instante congestionamos ruas, calçadas, becos, vielas, pontes, com nossos santoautomóveis. Era quadrada e foi se tornando redonda a roda, girando no espaço urbano, engolindo as paisagens geográficas de qualquer limite. As calçadas já perderam o meio-fio da finalidade. Máquina mortífera, o automóvel cruza a faixa sinalizada da auto-estrada e se espatifa em autoconfiança. Ford fordeu com a escala e saturou as estradas terrestres com insolúveis placas de trânsito em transe. Bill Gates voa na infovia, pisa fundo na Microsoft e lógos lógos o trânsito de bytes no espaço aéreo congestionará os neurônios dos micreiros. O duelo dos séculos: companhias petrolíferas x companhias de informática. Quem ganhará a contenda das estradas. O motor de meu gol de letra deu pau, o hd de meu micro fundiu o motor. As fuligens dos escapes enegrecem nosso corpo e as dos softwares esclarecem nossas almas? Amsterdam ainda é modelo de trânsito livre das bicicletas ou já está esquelética? Vivemos o boom automobilístico, o boom informacional. É buumm demais pra pouco bom bycicle, metrô a metro. Quem levanta a bandeira contra o culto às quatro rodas? Pego meu velocípede e dou um cavalo de pau. Upa upa cavalinho, vamos começar a pedalar a consciência de que o equilíbrio está no movimento e não no estatismo. Que rodas queremos no asfalto? Que trilho seguiremos? Conectamo-nos pelas estradas das bandas largas, queimando pneubytes, construindo garagens infinitas de informações. O choque do futuro será a malha asfáltica de cabos ópticos, satélites, estalactites. A história moderna não é morna, torna-se pós-moderna a cada via e veia conectada ao acelerador da fórmula um, dois, três, já! Se meu fusca falasse é infantil, sorvo de meu cantil fuligens, óleo queimado, meu calhambeque bip-bip, a história é retrovisor do futuro. Engreno a primeira no terceiro mundo, no primeiro é zero câmbio, automático, pneumático. Não consigo mais segurar o volante, estou percebendo que meu texto baterá de cheio no poste da esquina, que cairá atravessado interrompendo o trânsito, atrapalhando o tráfego, causando vítima gramatical, num desenho lóchico. Que venham os carros chineses em fila indiana, bem recebidos pelas ‘ofiscinas mekânicas’ das beiras de estradas repletas de cruzes sinalizando que o sinto muito, de segurança, está no céu ou no inferno dos ferros velhos, monturos recicláveis, modelos de consciência ecológica refazendo em folha-de-flandres novos modelos de morte, de estética automobilística em sessenta prestações suaves numa roda viva mortífera de bem-estar social, que só usa dez por cento de sua cabeça animal raul. É bom dirigir, não depender de buzu sardinha. Aplico mil pontos na habilitação da inabilidade dos administradores que não andam de metrô muito menos de grande ônibus lotado, menos metrô inabilidade habilitação administrador, a mil sou multado me viu o radar da burocracia esperta sinalizando o fundo do meu bolso ou a vida.

2 comentários:

Anônimo disse...

Enquanto isto tem ministro do Supremo vergando as costas para dar voto de 500 páginas no processo do Mensalão...
Se São Paulo tem algum defeito, é este: é a terra destes motoristas idiotas e sujões, que não respeitam pedestres e ainda jogam suas guimbas imundas de cigarro pelas calhas de rua fedorentas, que irão atirar mais restos de lixo no já poluído rio Tietê!
No futuro pós-sociedade industrial, ainda se indagará para que serviam todos estes carros e garagens, todos fruto da imensa e infinita IGNORÂNCIA HUMANA...
Enquanto não chegamos lá, economizo para comprar o meu fiat Punto último tipo...!

Anônimo disse...

Acho que alguém está tentando praticar um dos métodos de escrita dos surrealistas, a ''escrita espontânea''...
Isto é que dá ficar lendo TomZé e outros, bem como as principais obras da Tropicália!
Só espero que você não escreva freneticamente assim nos concursos, ou...