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quinta-feira, maio 15, 2008

O espetáculo da morte II

Estava eu, Lelê, minha filha de nove anos e Beibim, minha mulher, na sala de tv e a liguei para vermos o Jornal Nacional da Band Record e, de repente, caiu de dentro da tv no tapete da sala quase em cima de Lelê, que bebia leite com toddy, um corpo infantil denominado Isabela.
Ainda tentei aparar aquele corpinho desfalecido vestido de short jeans da De Millus, blusinha estampada com o rosto da Xuxa e tênis da Adidas. Ela ainda respirava gás neon das manchetes garrafais dos jornais e botei meu ouvido em sua boca e ainda deu pra ouví-la balbuciando: “o comportamento, as atitudes e o lado psicológico das pessoas estão cada vez mais complexos frente a essa sociedade cada vez mais complexa”. Tentei respondê-la, mas sua respiração parou.
A campainha tocou, Lelê foi atender e gritou do interfone lá da cozinha: “Pai, é a perícia da polícia criminal mais a imprensa paulista-brasileira-mundial. Posso mandar entrar?”. Respondi: “Termine primeiro de beber seu toddy”.
Lelê retornou à sala de tv e falou assustada pra Beibim: “Olha, mamãe, tá nascendo flores no cabelo de Isabela e seus olhos estão lacrimejando perfume jasmim”.
Antes que a perícia da polícia e a imprensa invada minha casa faço aqui um comercialzinho aproveitando a oportunidade, já que daqui a pouco o que vai ter de gente aparecendo nas tevês e jornais falando desse caso, não está no gibi do super homem: “caro leitor(a), leia, entre seus milhares de blogues prediletos, os meus preferenciais dentre tantos e tantos: primeiro, leia o meu: http://blogedups.blogspot.com e depois: http://alcnolet.blogspot.com, http://paccelligurgel.blogspot.com, http://www.solreflexo.blogspot.com, http://www.bbc.co.uk, e mais não cito pois a lista é grande”.
Retorno ao caso Isabela. Mal fui olhar pela porta entreaberta o reboliço lá fora e a polícia e a mídia quase me atropelam entrando feito loucos querendo gravar as últimas palavras de Isabela para registro no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.
Infelizmente, ou feliz, sei lá, a criança bonita e morta que agora aspergia perfume jasmim pelos olhos e tinha flores na cabeça estava sendo embalada pelos flashes e manchetes da imprensa e aparelhos da polícia técnica.
Eu, que estava de pijama comprado na Riachuelo, fui ameaçado de ser levado pra delegacia nesse instante. Uns policiais já estavam medindo a altura que Isabela havia caído. da tv 32”, hdtv, LG até o chão. Media 1m, 25cm, 46mm.
Detectaram as marcas de minhas mãos sobre o ombro dela, quando eu quis apará-la. Ondas magnéticas foram medidas para saber o que Isabela havia falado antes de falecer. Em vão, as ondas do mar não estavam pra peixe pro meu lado e havia um barulho lá fora de “justiça!, justiça!”... da turba que se formava já na calçada de casa. Confesso que morri de medo ser linchado pela multidão e lixado pela imprensa.
Um delegado vestindo blazer comprado na Feira do Guará já ia me algemar e aleguei que estava em minha casa e não havia como ser preso, isso se constituiria violação domiciliar, e não estou reagindo a nada, tenho endereço declarado, não fugi, e estava a sua inteira disposição. Até um ladrão de galinha sabe desse argumento, só que ele é preso e nós da classe dos bons aparentados, não. É a lógica penal brasileira dois menos um cai um zero no chão e pra mim fica tudo zerado e o sol ao quadrado para os ladrões de galinhas apenados.
A perícia policial ia conduzir o corpinho de Izabela para o IML, mas o povaréu na minha rua estava difícil de ser contido exibindo fotos com todo tipo de feridas, cachos de cabelos, pernas de pau, o escambau, simbolizando os milagres feitos por Izabela. Um helicóptero da imprensa fazia tomadas cinematográficas e o barulho das hélices deixava o povo mais eufórico.
Beibim e Lelê estavam assustadas e chorando muito, uma policial fez uma garapa adoçada com zerocal, o da propaganda com Zé Wilker e elas beberam à imagem e semelhança da tv.
A solução para o traslado da menina de pano foi chamar o Padre Marcelo que rezaria uma missa de corpo presente, passado e futuro do messianismo brasileiro, de Antonio Conselheiro à Tia Neiva do Divino do Sétimo Dia.
Em um caminhão chegou o Padre Marmelo Marcelo Martelo com camisas do Flamengo para serem distribuídas para acalmar a espiritualidade futebolística da galera. Todos vestidos com o manto sagrado cantaram e dançaram pela alma da bonequinha da Trol, erguendo os braços e balançando os quadris com ave-marias e salve-rainhas. Essas ações de contenção não surtiram efeito pra galera até que, por decisão do Padre, anunciada nesse instante, de que o jogo Flamengo e América do México, jogo da Libertadores, seria realizado de portões abertos no Mané Garrincha, e isso funcionou como um sossega leão patrocinado pelo Chá Mate Leão. Jogo ganho, todos juravam pela alma da calunguinha, mas não combinaram com o América mexicano que mostraram os bigodes e sombreros derrotando o Fla.
A cada fala do Promotor Moshe Dayan a imprensa quer me ver quadrado ao sol, e eu quero distância ao quadrado desse caso, passo então a bola que o Fla não jogou para os Nardoni sob o patrocínio do Fantástico da Globo sob os patrocinadores do Fla, Lubrax, Petrobrás. Obina não teve entrevista exclusiva na revista eletrônica para justificar a morte do Fla, como os Nardoni tiveram e mais tarde a mãe da pequenucha – que Deus a tenha no jardim-de-infância.
Beibim e Lelê agora estão sossegadas com a minha retirada de campo, o Fla mandou lavar o manto, os Nardonis já estão em cadeia nacional, a mãe verdadeira de Belinha deu pique de audiência no último Fantástico logo depois da apresentação do quadro dos mágicos, ilusionistas a embevecer e sensibilizar o espetáculo infantilizado da sociedade dos poetas do merchandising mortos, mortos de fome por uma tragédia sob o patrocínio da sociedade morta de fome por tragédias. Logo após os comerciais eu volto com mais informações.

Um comentário:

Unknown disse...

Muito boa esta! Dispensa comentários. Para sua ciência, e dos demais, ''habeas corpus'' significa ''trazer o corpo''. O corpinho de Isabella está sendo disputado pelo Ministério Público e pelo legista contratado pelos Nardoni ( quem sabe ele consiga provar, desta vez, que nem crime houve...)