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quarta-feira, outubro 03, 2007

Argh!

Sexta-feira. Em Brasília são dezenove horas. A voz do Brasil ressoa nos botecos a molhar as palavras comentários adentro sobre o fora do Senado que deixou dentro seu Presidente, cassado pelas mesas éticas etílicas. As garrafas em garras vadias afiadas eram abertas na frente do freguês, nada secreto, nada de decreto. Descontando os tropeços de línguas travadas seis mil mls uns a mais outros a menos, havia sobriedade nos discursos, naturalmente, do contrário, se inflamados, todos estaríamos carbonizados. Do atlântico à antártica, do boêmio à bohemia, de strauss à brahms, do scholar à skol, a efervescência das oratórias professorais soletrava a contemporaneidade brasileira. Estava eu, estava tu, viva o rabo de Mônica Veloso, no Beirute, depois no Bar Brasil – mais Mercado da W3 Sul - academias etilistas da intelequitualidade e de tribos brasilienses onde se encontram para embriagar-se o país. Em minha mesa até parecia que estava e analisava o furúnculo dos donos do poder senatorial o Raymundo Faoro. Na mesa ao lado ressoava interpretação bêbada e equilibrista do bamba Darcy Ribeiro a julgar que o processo civilizatório político tupiniquim está em recesso, decesso. Pelas tantas, já quando se beber não dirija, se dirigir atropele o Senado, e já saboreado o pastel – que é um almoço, em tamanho e sabor – do Mercado, sou levado pela cevada ao gol, movido a álcool, e um menino de rua, de cidade, de capital, turbinado à cola – tripla combustão para explodir qualquer naipe político - desliga meu acelerado happy hour quando ligo a ignição do um- ponto-zero. Implora uns trocados. Dou-lhe o trocado com a sensação de que a facada seria maior. Faço o cálculo mentalmente: cerveja, combustível e cola de sapateiro, não entram na p(a)uta do Conselho de Ética do Semnada. Muito menos um rato podre infante travestido de ser humano e um ser humano adulto travestido de rato podre. Afinal, pela milésima vez, somos rato ou ser humano? Minhas células cerebrais em mil megatons preservadas em álcool laboratorial mostravam que minha lucidez estava abaixo da sola de sapato que palmilhava a cabeça do pivete, colada na cabeça do gado de Renan. O guri, mais trebego do que eu, dá mais uma canfugada na cola e me cala. Ele não tem colo e decola, o out door da coca-cola pisca e rabisca um design consumista, hoje é sexta- cheira, amanhã é dia de feira, afundo o acelerador, o gol quer o posto Ipiranga, abasteço-o, cresço, adentro a avenida larga da esplanada, dou o grito do Ipiranga, a bexiga clama na rampa do Congresso, aproveito descuido da segurança, desço do auto, subo no prato de prata da Câmara, levanto a tampa da mama, a fedentina é pior do que aquele corpo descolado miúdo morto às margens plácidas do Alvorada, descarrego a bexiga no plenário, sinto alívio urinário, a missão contemporânea é mais funda, vou até a bacia do senado, levanto a campa, vazio o plenário é o meu calvário, não tenho mais urina, as narinas pedem clemência às excelências, a segurança pode chegar, a hora vai acabar, olho pro meu dedo indicador, não é rima mas é solução, meto-o na boca, no céu da pátria nesse instante, e o pastel, o cheiro da cola, resquícios de cevada, o painel da coca-cola, os discursos sem cursos das mesas botequinais, descem num jorro, em esporro nos tapetes azuis da casa grande e senzala de Renan e confluem nos tapetes verdes da casa de dona Jô de Chinaglia. Protuberoso, nada de asqueroso, é costume navegar em mar escandaloso essas casas, de Cabral a Cardoso, de pulhas a Lulas. Acreditando ter feito um gol de placa bacteriana, pego meu gol na grande área aplainada da esplanada, e acelero rumo a estação Finlândia, pegar gelo pra uma dose de uísque, fazer uma lavagem estomacal bicameral. A imprensa, na crença bufa de que foi efeito estufa investiga e mitiga a situação. Tudo é normal, há cento e vinte dias não chove em Brasília, mas as águas do Lago Paranoá haverão de afogar minhas mágoas.

3 comentários:

Unknown disse...

Gostei. Tem cara de ''Pasquim'', de Fausto Wolff, este texto. Acho que as suas recentes leituras devem ter influenciado...
As imagens são bem vívidas, o fedor do Congresso, afogar as mágoas no Paranoá, a peladona da Mônica Veloso, talvez um destino melhor para o dedo indicador (um autor que li às pressas na Cultura falava em uma tal de ''punheta de 3 dedos'', pela qual ele conseguia masturbar-se em lugares públicos(?!!!)sem chamar a atenção de ninguém(!!!), o autor também mostra o seu profundo conhecimento dos estabelecimentos etílicos da Capital Federal, onde costuma fazer comentários do gênero e sacar o seu cartão de crédito financiado pelo Tesouro Nacional- a ''Viúva- tão vilipendiada mas também tão útil para a manutenção das esquerdas. Se não, como elas se manteriam, como elas poderiam se financiar para continuar o seu eterno combate- verbal- contra as chamadas ''elites''? Este comentário, breve aparte concedido por Vossa Excelência, já virou um outro texto...

Blogedups disse...

Minhas recentes leituras: O bibliófilo aprendiz, de Rubens Borba de Moraes; Documentação de Hoje e de Amanhã, de Jaime Robredo; Guerrilha Noturna, de Joel Silveira; Pacto de Sangue, de Fanny Abramovich. Tem alguma coisa a ver com esse texto? Esquerdas? Onde? Onde? Onde?

Unknown disse...

Eu disse que Sua Excelência tem um ponto em comum com as chamadas esquerdas: ambos gostam de frequentar estes antros etílicos à beira do Lago Paranoá, enquanto cantam loas ao fim do Capitalismo Burguês que os financia graças ao pagamento dos impostos escorchantes que incham os cofres do Tesouro Nacional. Foi SÓ isto que eu disse!!!