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quarta-feira, junho 07, 2006

Negritude

Casa Grande e Senzala, clássico sociológico gilbertiano, já expunha as vísceras e as vestes da classe dominada brasileira em tempos idos. Freire não freia as rédeas e revela ao mundo o submundo do que passava e engomava a marginália: – não por opção, mas por operação do ferrão de gado - os palitós de linho branco dos senhores e senhoras, respeitável público tupiniquim.
O circo solé faz contorcionismos só comparados à flexibilidade do judiciário em conceder hábeas corpus de christi aos incautos apaniguados, que, protegidos pelas capas pretas da lei, não irão, jamais, ver Marcos Pontes através do sol quadrado. E aqui é que entra – e não sai – a questão do parágrafo anterior. A marginália, agora repaginada pela linguagem da rua, Da Mata cola o carbono, xerocopia, passa toner nos da margem pós casa e cozinha comzala. Não por que Da Rua e Da Mata seja plagiador, mas com dor vemos que se trata de uma realidade que não mudou desde o tempo e o vento. É veríssimo!
Os índices do IBGE, que alfabeticamente organiza os números, enfileira os dados, tabula nossas mazelas, também ratifica que os ratos de porão de plantão, de qualquer época, de qualquer partido, inteiro ou rachado, sigla ou rubrica, estabelecem o descompromisso com a galera, com a favela. O compromisso é com a fivela, o cinto no açoite do lombo da história. Tão permanente, que, dos papiros aos pixels a história é recontada e somada para que ninguém esqueça. Ligue e se ligue nas 425 linhas do horário ‘das seis’ e torça o lenço sem documento. À negrada é negada o direito que a esquerda vermelha tupiniquim enxovalhou. Em plano e subplano das câmeras, a câmara enfatiza a maquiagem das cenas de dá dó. São notas musicais que embalam os comerciais das próximas cenas dos negros retorcidos nos mourões dos deputados fazendeiros, senhores feudais federais, com liberdade amparada nas históricas togas, e também na igreja.
A das seis, globalizada, e a das sei lá que horas, universalizada, carregam no dramalhão segundo os ditames do primeiro lugar do ibope, que é um ibge circunstancial, tabelado sob encomenda de quem a bel prazer. A satisfação de recuperação histórica passa a existir nos programas federais de inserção mercadológica. Vagas nas universidades com cotação percentual mínima como forma de concertar a deformação. A formação, em sentido lato, depois que os movimentos de consciência negra barulharam em lata, é conquistada aos poucos, e, oxalá, olodum, mãe do cantois, e demais babalorixás, se alastre no curto circuito acadêmico de primeira linha federal, onde reside a nata e o leite da mais fina flor do láscio.
Mas sabemos que as estatísticas apontam, e não deduram, que a massa negra dos depauperados, e branca idem, continuará no miserê por muito tempo a mercê das canetadas parlamentares, sacramentadas no diário oficial da união congressional. Unidos sempre estiveram, a tal ponto, vírgula, reticências, que suas pontuações no grau de honestidade estão na posição do Íbis, o pior time do mundo. Quem não se lembra do Ibsen? Mas a justiça honesta oficial garante que ele é inocente, e a justiça não oficial versa que ele é inocêncio. Há de se reconhecer que negritude é atitude. É pura labuta cotidiana que não amaina para demonstrar seu valor. A discriminação é uma ação ainda corrente, resquício das correntes, argolas, presas aos pés e raízes históricas dos açoitados. Os conceitos pré estavam estampados até no vocabulário controlado da dominância gramatical. Por que quadro negro? Ora bolas, chuteiras e meiões, o jogo limpo já aponta que o correto é lousa. Por que esperar além do tempo regulamentar, os três, quatro, minutos para ninguém sair da partida machucado? O jogo continua. O apito ainda não é o final. Infeliz mentes.
Edups. 26/5/06

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